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Mônica Donetto Guedes fala sobre maioridade penal, educação e violência

sexta-feira, 3 julho , 2015

A convite da Revista Brasileiros, a Psicanalista Mônica Donetto Guedes, Titular da Formação Freudiana, discorre a respeito das relações entre a violência endêmica no Brasil e a infância das crianças brasileiras.

 

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Má educação leva à busca de atenção pela violência

 

É certo que a impossibilidade de revisitar os seus buracos psíquicos levará esse jovem ao acting out reproduzindo as experiências vividas junto às famílias.
 
A violência exercida pelas crianças e adolescentes diz respeito à tendência antissocial produzida pelo que chamamos de privação. Violência aqui designaria todas as condutas inaceitáveis socialmente que seriam frutos de questões inconscientes. Em primeira instância, seria um chamado, um pedido para que um olhar lhe seja dirigido com o objetivo de receber algum tipo de amparo.
 
Ao analisarmos o conceito da “tendência antissocial” compreendemos que ela segue duas direções: uma relacionada à destruição e outra relacionada ao roubo onde a criança busca através do objeto roubado, a mãe que não lhe deu o amparo necessário bem como a interdição da lei paterna com a sua autoridade.
 
Segundo o pediatra e psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (1896-1971), a delinquência traz no seu bojo a esperança perdida por essas crianças e jovens, sendo assim podemos inferir que recorrem à sociedade quando a família falha. Estaria no ato de delinquência a tentativa de buscar algo que foi perdido para que possa encontrar sentido na vida.
 
Uma sociedade que não consegue fazer considerações e analisar os aspectos emocionais e relacionais que estão envolvidos nos atos de delinquência não produz espaços onde crianças e jovens possam reelaborar e retomar o significado dessas histórias primitivas. No caso do nosso Estado, é preciso avaliar se ele também não se comporta como essa “mãe” incapaz de amparar o seu “filho” e oferecer a segurança necessária para que se desenvolva de forma sadia.
 
Nesse sentido o que assistimos ao longo da história é que como uma sociedade incapaz de oferecer esse holding, crianças e adolescentes chamados de delinquentes estão também privados de uma comunicação suficiente que possa promover a reelaboração do seu modo de sentir, pensar e agir, restando-lhes repetir, repetir e repetir…
 
Seria necessário que essa criança pudesse experimentar o amor por uma pessoa e assim já não precisaria mais de objetos substitutos usados como âncoras ou próteses para sustentar a dor de existir: a oferta de um ambiente seguro, forte, que oferecesse amor e aos poucos liberdade para que possam seguir as suas vidas.
 
É isso que os nossos presídios oferecem?
 
É certo que a impossibilidade de revisitar os seus buracos psíquicos levará esse jovem ao acting out reproduzindo as experiências vividas junto às famílias, pois esses jovens são filhos de outros tantos que sofreram privações e por isso não conseguem ocupar o lugar daquele que sustenta e ampara e por isso os deixam “cair”.
 
Gostaria de ressaltar que essa condição não diz respeito a uma única classe social. Não diz respeito à qualidade das nossas escolas, da condição de moradia, alimentação… Essa é uma outra discussão.
 
A privação e delinquência diz respeito aos cuidados que uma mãe pode ou não oferecer ao filho nos seus primeiros anos de vida, da forma como o acompanha ao longo do seu crescimento, e das marcas impressas da experiência de pertencer a uma família … E temos crianças privadas dessas “necessidades básicas” em todas as classes sociais.
 
A diferença será demarcada apenas pelas oportunidades: os menos favorecidos talvez se mostrem delinquentes aos 16 anos e os mais favorecidos cheguem à maioridade mais preparados e livres para exercer a delinquência com armas mais poderosas!
 
Se aprisionarmos o sujeito sem lhe oferecer uma estrutura capaz de levá-lo a uma ressignificação da sua história, isto é, um lugar que lhe dê esperança, estaremos aprisionando também todas as suas carências e angústias. O que podemos esperar como resultado? Não seria uma atitude hipócrita e ao mesmo tempo ilusória retirar o jovem das ruas na “tentativa” de produzir uma sociedade estruturada e menos violenta?
 
É preciso ainda considerar que os presídios repetem essa violência vivida pela criança nos primeiros anos de vida, quando retira do jovem o pouco que ele ainda tem, sobretudo, o nome. Ao despersonificar o jovem (sendo um número, raspando sua cabeça e o vestindo igual aos demais) não estaria cristalizando-o naquela condição? Como produzir mudança no modo de existir se quando olha em volta o que o adolescente vê no outro é o reflexo de um “eu” que parece estar condenado àquele modo de funcionamento?
 
Uma instituição que deseja de fato que o indivíduo lá inserido possa viver experiências mais saudáveis, mais criativas e expansivas deve em primeiro lugar recebê-lo com o que ele tem, com o que construiu psiquicamente, mesmo na precariedade. Em segundo lugar, deve oferecer um espaço de reelaboração e ressignificação dos aspectos que o levaram àquela condição: discussões em grupos, terapia de grupo e individual. Em terceiro lugar, deve oferecer atividades onde possa descobrir suas potencialidades com limites e regras estabelecidas.
 
A possibilidade de mudança na forma como se pensa e age em sociedade precisa passar incondicionalmente pelo corpo daquele que produziu o mal-estar, usando de violência e de atos ilícitos. Mas não através da violência que se assiste nas instituições (tanto pelo modo como estão organizadas como pela violência física que incitam), mas pela possibilidade de se haver com a sua estrutura psíquica e compreender o que o leva a agir fora da lei, pois só assim é possível encontrar uma nova forma de estabelecer relações.

 

 

Mônica Donetto Guedes escreveu a convite da Revista Brasileiros, para a edição de junho de 2015.

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