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Sobre o filme Manchester à beira mar

sexta-feira, 12 maio , 2017

Trans Manchester…

 

Seria um mecanismo de identificação projetiva, quando o personagem principal sentado no bar, quebra com a realidade e decide agredir os rapazes sentados do outro lado do balcão, tendo que expor toda ira que tem em/contra si… Como se faz essa ira? O trauma de ter perdido as filhas, símbolos que sustentam parte da vida, teria colocado em questão toda a defesa egóica que o sustentava até ali?
Pensemos no bebê mítico: O nível de frustração, segundo Bion, determinará a criação do objeto mau, e toda a incapacidade de pensar se transforma em um “destino pensado-não pensado” das pulsões. Uma certa clivagem passou a constituir o personagem a partir do trauma; trauma da representação/símbolo que reatualiza o que é marca dos processos primários, as percepções que no inicio da vida afetam o ser humano em formação. Pensar por esse caminho, opõem-se a pensar o ser humano como estrutura, pois a clivagem se dá por um trauma e pode ser (re)feita. Marco o (re), pois não se trata de voltar para um lugar no qual já se esteve antes, mas o pensar em si refere-se o (re)pensar o lugar da frustração que já se esteve antes, bem como o novo lugar que há de surgir, (re)inventado. Prender-se ao que foi, negar o movimento possível dos encontros e resistir numa posição de não entrega ao outro, a vida… é aceitar a derrota para o que nos faz destruir e disjuntar, que estará presente, sempre para além do nosso pensar, marca fundamental da silenciosa ausência de sentido em existir, imbricada na vida.
O lugar do analista seria aquele de deixar o paciente falar e encontrar, mesmo que não saiba, as origens do movimento? Um começo sem fim? Imaginar o que somos é a fantasia que nos resta. A partir dessa possibilidade de fantasiar nossa existência, doloroso e expansivo movimento da vida, devemos incluir as palavras, mas sem nos atermos a elas. Penso ser pouco, diante da vastidão de possibilidades, uma explicação da natureza humana pela palavra. Ela não dá conta.
Os afetos marcam aqui uma diferença fundamental no nosso existir. Somos constantemente afetados pelo nosso sentir, desde o momento fundante da nossa relação com o objeto, mesmo sem sabermos que ele já estava lá. Note aqui, que ao tentarmos iniciar considerações sobre o afeto, a presença do objeto torna-se marca fundamental para que haja a possibilidade de movimento, pois o afeto irá circular nesse contato. A cada novo instante o movimento se (re)inicia, toda a trama de nossa imaginação é passível de um novo significado, podemos aqui brincar com nossas fantasias e descobrir outros caminhos. Luta inglória hão de dizer; mas porque não lutá-la, eu perguntaria?
Zumbis, os parasitas dos vivos, me interessam pouco, ou quase nada. Interessados apenas no resto de organicidade que ainda possuem, fazem o uso do outro apenas para sugar alguma vida daqueles que ainda brincam de imaginar. Não há “entre”, não há troca, a direção é uma só – a morte – mesmo que se possa resistir por algum tempo. É, sem duvida, fundamental pensar o corpo, mas ele está muito além do orgânico. É preciso sentir o corpo e a imaginação desse corpo, e sua relação com o mundo, com o outro, com o “entre”. Incluo aqui a ideia do tempo anacrônico para pensar o corpo, pois, sem tal contribuição, ficamos presos a um tempo do presente, que é simplesmente um retrato, imagem congelada, empobrecida, de tudo que nos representa, imagem que congela o movimento, impedindo nosso brincar. O afeto paralisado do tempo presente não seria um dos símbolos da morte, contra a qual lutamos para existir? Não seria o pensar/não pensar no anacronismo, a partir dos encontros com o objeto – o psicanalista é um deles -, que instauraria o movimento característico da possibilidade de integração no eu das partes clivadas diante de um sofrimento/frustração que se (re)apresenta? É importante ressaltar aqui que não excluo, a partir da ideia de tempo que proponho, o presente vivo do (re)encontro com o objeto, da circulação do afeto, do movimento. Sem esse, estaríamos aprisionados na impossibilidade do encontro, dos atravessamentos, que impulsionam novos movimentos, preso num tempo cronológico passado. Daí, um dos valores da análise, da formação do analista, da teoria que usufruímos, pois um analista que se permita um tempo anacrônico abre uma das vias para que os encontros se deem, para que os afetos circulem e encontrem novas vias, talvez, propulsoras de vida. O analista deve ser capaz de se permitir aos processos primários, e suportar que os movimentos aconteçam. Nesse encontro que pode se dar em uma análise, os rumos são imprevisíveis, eu diria, e muitas vezes nos deparamos com uma tal força de imotilidade que todo cuidado e atenção aos nossos próprios congelamentos devem ser constantemente (re)analisados. Se o jogo é inconsciente, nossos demônios também aparecerão.
O pensamento clínico, proposto por Green, se torna aqui imprescindível, pois, para ele, “o trabalho do pensamento é, antes de tudo, um trabalho do afeto e o caminho feito pelo trabalho do pensamento vai de alguma maneira revelar o trajeto que foi percorrido pelos afetos”(O duplo Limite: o aparelho psíquico de Andre Green, Talya Candi).
O filme mostra um personagem esvaziado, congelado, aprisionado na cronologia do tempo passado e, longe de dar até uma falsa esperança sobre a possibilidade de (re)integração em um tempo anacrônico, de permitir o pensamento, deixa um registro da força da imotilidade, da paralisia com/contra a qual a vida (e a análise) sempre se deparará.
É a partir dessa constitutiva oposição – e com todo o risco que é pensar e sentir com o paciente – que, clinicamente, me fortaleço nos atravessamentos afetivos intra e intersubjetivo simultâneos, como nos ensina Freud, Green, primários … inefáveis… que marcam movimentos imprevisíveis, a partir dessa clivagem inicial entre o existir e o nada.
Diante dessa dualidade, tentando saber, caminhamos.

 

Marcelo Cobucci
(Médico psiquiatra e Psicanalista Membro da Formação Freudiana)

 

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